Eram dois jovens curiosos, tão jovens e tão curiosos quanto outros tantos daquele singelo parque, mas estavam apaixonados. Estavam à beira do lago Esmeralda, sentindo o cheiro doce das Cirraguilhas-Maçonhas e ouvindo os cantos e prosas de não muitas décadas atrás, tomados pela profundeza do ceu escuro e pela liberdade do feriado em plena terça-feira. Enquanto em seu próprio mundo, os dois jovens viviam de maneira tão ávida e tão intensa que tudo era uma aventura: fossem as pessoas a estender suas longas vestes em tão úmido gramado ou o vento que lhes confidenciava os segredos mais secretos um do outro. Com sorrisos tão discretos e toques tão distintos, a energia aquariana inundava seus puros, mas não inocentes corações.
Numa decisão silenciosa ambos se levantaram e decidiram sair dali. O ceu estava mais escuro, suas bocas já não sabiam mais qual destino tomar e seus corpos pulsavam de curiosidade. Se pudessem falar, pediriam, em uníssono, para serem explorados, curiosos corpos. Nunca em silêncio, tão jovens que são, saíram à procura de aventuras e o que acharam fez seus olhos brilharem de excitação: um vale de promessas e sonhos, um beco encantado e colorido no meio de todo aquele cinza e escuro do ceu e dos prédios, das pessoas, da tristeza e dos corações partidos. Tão jovens, tão curiosos, tão inocentes, meu Deus, foram logo entrando, sorrisos nos rostos, olhos arregalados, mãos dadas e não era nada. Apenas promessas.
Saíram de lá menos jovens, menos curiosos e menos inocentes do que entraram. As mãos mais firmes do que antes, só eles sabem o nada que viram, os nadas e tudos que virão. De cabeças erguidas, porém em silêncio, caminharam pesadamente em meio à garoa. De frente ao Morro das Memórias, juraram se amar, então seguiram em meio ao cinza, não mais tão jovens, não mais tão curiosos, mas não menos apaixonados.
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Vale dos sonhos dentre os prédios dos corações partidos
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Entuamenção
Por três anos eu consegui fugir. Três anos e eu não me via mais aqui nesse lugar sombrio, frio e vazio. Trinta e seis meses ignorando o fato de que, na verdade, eu nunca saí, estava apenas de olhos fechados. Mil e noventa e seis dias sussurrando à mim mesmo que estava tudo bem, me impedindo de ouvir meus pensamentos. Vinte e seis mil, trezentas e quatro horas andando sem rumo, explorando o nada, falando com ninguém. Esse tempo todo eu estava sozinho, só eu não vi.
Hoje, agarrado na promessa de um amor e na esperança de um futuro, olho pra frente e insisto em dizer que enxergo sim um novo caminho. Que me vejo sorrindo num porta-retratos, trilhando nossos trajetos e protegendo nossos filhos. Eu quero acreditar. Eu preciso acreditar. Eu preciso de ti. Eu confio nas tuas palavras e me escondo no teu abraço pra não mais sair. Eu te amo e por isso te protejo de mim mesmo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Ombro Defeituoso
Enrolado nas minhas dúvidas ou cobertas, não há nada que eu possa fazer. Não há passo a ser dado, palavra a ser dita, coração a ser partido. Infelizmente, deitado em posição ridícula, cá estou eu, sufocado em temerária ansiedade, contracenando em peças de puteiros que se passam na minha mente, dirigido por mim mesmo, duramente criticado por quem vos fala. Quebre a perna, filho da puta.
Em tuas mãos passaram as palavras que me desabilitaram, automaticamente me desconectaram do real, me fizeram perder o nexo da verdade e me transportaram pra esse universo caótico e barulhento de pessoas tão comuns, rostos conhecidos, bocas que querem a sua. Em tua mente eu sou apenas um pobre miserável em todos os aspectos, complexo demais pra ser contemplado, simples demais pra ser jogado fora, mas que, em raros surtos de felicidade e falsa embriaguez, sabe se portar socialmente. Mesmo que tal socialidade seja feita nas molas do teu colchão.
A grosso modo eu sou o único motivo que te impede de achar a verdadeira felicidade, o êxtase momentâneo, a curiosidade do momento, o prazer da descoberta e, enquanto isso me soca a garganta dia após dia, tua alma insiste em me repetir. Teu corpo resulta por me querer. Teu coração se encontra com o meu. Minha barra só se completa na tua presença.
Preocupado, envergonhado, ainda na mesma posição desconcertante, fecho os olhos e te vejo naquele mundo. Você está olhando pra mim, distante de tudo e de todos. Tua mão está estendida, teu corpo inclinado, e eu me pergunto se tu queres que eu entre ou que eu te tire.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Pêndulo
Exausto não é a palavra certa, mas é a primeira que me vem à mente.
Será, meu Deus, depois de todo esse tempo, que eu não consigo parar deitado num chão gramado, sujo até, olhar pra cima, pro ceu, pras estrelas, não sei, e agradecer? Eu te respondo com dura certeza: não, e te digo o motivo.
Mal agradecido não é a expressão correta, mas é a única que me vem à mente.
Eis o motivo das minhas unhas roídas, dos meus dentes quebrados e língua mordida. Contemplem, caros e caras, a razão da minha angústia. Tão igual, tão próximo, sangue do meu sangue. Me sufoca com a fumaça diária do seu olhar e me mata, lentamente, com sua voz. A bênção, eu lhe peço.
Bastardo não é a palavra certa... Mas bem que eu gostaria.
Em verdade e em verdade vos digo, digníssimos: todos e cada um de nós cai na própria mentira. Em verdade e em mentira eu vos digo, que se foda. Minha mentira é genial e me chama de "meu homem".
Amor não é a palavra certa, mas é o sentimento.
Tentado diariamente a dar um fim em tudo isso, alucinado em sobriedade, tortura preta e branca, o gosto tão insosso de uma vida que não passa, de um relógio que não gira, a vontade insaciável de escrever e transpassar e transmitir a solidão.
Tristeza não é palavra certa.
Mas é a única.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Vida (ou tristeza com vestido maltrapilho)
Quem sabe uma vida não seja o suficiente pra mudar minha tão insistente inércia. Uma morte tentou, mas não obteve sucesso. Hoje me vejo nos braços de um amor proibido, cercado por ameaças invisíveis, porém audíveis, preso em celas de cipó e grade creme, tentado a mudar tudo radicalmente, algo que ainda hei de me acostumar, pra poder dormir com ambos os olhos fechados.
Pingando de minhas mãos estão as lágrimas de meus familiares, concentradas no único lugar em que puderam achar desconforto e solidão, a tradução mais sincera do choro: meu frio espírito. Acaricio a todos e cada um com toques despretensiosos e involuntários, toques de quem não quer, toques de quem não vai. Ali e agora não. Os olhos, tão verdes, tão azuis, tão abertos e esbugalhados, julgam meus pretos, escuros, fechados e sonolentos olhos. Olhar cansado, só meu, direcionado para um futuro promissor já apagado pela certeza da derrota.
Enquanto calo no caos e cuspo no luto, minha já manjada tontura causa incerteza nos teus passos, medo em tuas palavras e raiva na minha cabeça. Deus, seu brincalhão, se isso é um teste, deixa o motivo do meu riso fora disso. DEUS, seu sapeca, eu não tô te ouvindo! Feliz contigo, miserável sem ti. Leia nas entrelinhas, tava tudo no contrato.
Mais um dia, mais uma pessoa a ser desprezada nesse local sujo. Palavras e palavras que juntas, olha só, estão formando um desabafo reprimido, tão sincero quanto a raiva que o tempo tem de nós. Dois anos se passaram e pouco mudou. Os sonhos pioraram. A tristeza ainda é a mesma. O ódio e o amor confundem-se agradavelmente. Mentira... Mentira.